quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

O Mundo de Mônica




Mônica andava pelas ruas, toda suja, toda sentida. No passado, foi moça bonita, falava bem, vestia-se bem, comia bem! Mônica tinha uma casa, um marido, um presente tranqüilo e sonhos para o futuro. Tinha suas plantas, seus bichinhos de estimação – era cuidadosa com as coisas que tinha!
Mônica tinha tudo. Pois é: tinha! E agora andava pelas ruas perdida... Por onde passava, as mães seguravam seus filhos e, aflitas, cochichavam algo, enquanto as crianças ficavam nitidamente constrangidas. As velhinhas, por sua vez, seguravam suas bolsas, como se nelas houvesse o sopro de vida. Os marmanjos passavam pela moça, como se a pobre nem existisse. Mas ela existia! E tinha fome e tinha frio e tinha sede e ficava doente e ficava triste e tinha enxaqueca e tinha vida! Mônica tinha de tudo! Só não tinha beijos afetados, abraços calorosos; amigos para o jantar. Não havia uma mão amiga; uma ajuda concreta.
Mas hoje era noite de natal e, de Jesus, Mônica se lembraria. Ouviria as pessoas gargalharem; comeria sobras - com sorte, até um cantinho mais iluminado ela teria para dormir. E dormindo, Mônica sonharia, e no sonho, amanhã seria um lindo dia.


Ore por Mônica, mas não chegue perto! Ela fede, ela respira!


(Flávia Trigo)

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Bipolar




Beijos mutantes:

mutilados e íntegros
motivados e sem vontade
multiestalados e calados
multífluos e áridos
multiacesos e apagados



Sussurros e ódios:

rancores e espasmos
drogas na veia
comida integral
dormir cedo

- acordar para
caminhada matinal




Luz do sol:

cansaço e escuridão
flores murchas
colhidas, esquecidas
e dormidas na minha mão

- esqueça a nossa canção!



Beijos:

mutantes e mutilados
sentimentos íntegros
em cacos de vidro
sangrentos e chatos!
Multipolares
neuróticos
Um saco!


(Flávia Trigo)

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Hoje




Hoje sou sonho
e sem motivo
(compreensível)
sou seu pão
sua fome
sua sede
Fina risca
entre
a inocência
e a perdição
Sou a luz negra
sou a própria escuridão
Hoje sou alegria
sou tristeza
chuva e vulcão
Sou tudo
sou nada
sou (ainda)
aquela nossa velha canção.

(Flávia Trigo)