Mônica andava pelas ruas, toda suja, toda sentida. No passado, foi moça bonita, falava bem, vestia-se bem, comia bem! Mônica tinha uma casa, um marido, um presente tranqüilo e sonhos para o futuro. Tinha suas plantas, seus bichinhos de estimação – era cuidadosa com as coisas que tinha!
Mônica tinha tudo. Pois é: tinha! E agora andava pelas ruas perdida... Por onde passava, as mães seguravam seus filhos e, aflitas, cochichavam algo, enquanto as crianças ficavam nitidamente constrangidas. As velhinhas, por sua vez, seguravam suas bolsas, como se nelas houvesse o sopro de vida. Os marmanjos passavam pela moça, como se a pobre nem existisse. Mas ela existia! E tinha fome e tinha frio e tinha sede e ficava doente e ficava triste e tinha enxaqueca e tinha vida! Mônica tinha de tudo! Só não tinha beijos afetados, abraços calorosos; amigos para o jantar. Não havia uma mão amiga; uma ajuda concreta.
Mas hoje era noite de natal e, de Jesus, Mônica se lembraria. Ouviria as pessoas gargalharem; comeria sobras - com sorte, até um cantinho mais iluminado ela teria para dormir. E dormindo, Mônica sonharia, e no sonho, amanhã seria um lindo dia.
Ore por Mônica, mas não chegue perto! Ela fede, ela respira!
(Flávia Trigo)


