terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Ácido


A música não tocava. O violão jogado de lado. Já não tinha vontades, ou ainda, não mais importavam. Resolveu ser normal, ser decente, resolveu mostrar aos outros que valia a pena
ser quem ele era. Quem ele mostrava ser. Fingiu tão bem, que acabou se perdendo. Pouco importavam as horas, os dias, as pessoas. Ele sim, tinha cabeça boa! Não era mutante, inconstante ou desequilibrado. Ele sim, era confiável! Mas o problema real surgia quando a noite chegava. Tomava banho, fazia a barba e então, se olhava no espelho. Afinal de contas quem era aquele sujeito que via à sua frente? Era ele! Mas quem era “ele”, afinal? Ahhh, ele era o sujeito equilibrado, o sujeito constante. Dava um sorriso falso, para si mesmo! Fazia a barba correndo, sufocado pela idéia de, enfim, se reconhecer frente ao espelho. Dava logo uns tapas (passando a mão no rosto, impregnada de uma ótima loção americana ; um must ! ).
Terminado o capítulo banheiro; ia para a cama. Dormia profundamente, após a ingestão de um confiável tarja preta. Droga lícita, de gente bonita, de gente bacana e equilibrada. Usava “só para relaxar”.
No outro dia levantava-se, não se olhava no espelho, tirava o pijama, tomava café - quente e forte - , enquanto lia o jornal que pegava em frente à sua porta. Tudo certo. Tudo milimetrado. Só quando se sentia preparado para o dia longo e estranho que tinha pela frente, saía de casa. Dirigia seu carro ouvindo no rádio o jornal para pessoas cults. Ele era cult! Sim! Ele era antenado, equilibrado e cult! Sim, ele era um chato! Ele era ácido.


Afinal de contas, do que falávamos mesmo?


(Flávia Trigo)

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Desconforto


Estou tão triste
tão triste
que rima
minha
mal brinca
com as Palavras

Que meus sussurros
ecoam trovoadas
Que meus olhos
gritam
as primeiras
lágrimas
motivadas
por não sei o quê

(vindo de mim
ou
de você).

Estou tão triste
tão triste...
Que do meu peito
sangra o desalento
de palavras
mal interpretadas

Me diz, tudo isso
pra quê?

(Flávia Trigo)

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

O moleque, a Preta e a bola


Pé de moleque
pata preta
Preta pega
a bola que rola
que bate no pé
do moleque
que corre

Preta pula
o moleque chora
Preta pára
baba e lambe
o suor do moleque
que escorre

Abana o rabo
O moleque sorri
levanta e chuta a bola
suja de terra vermelha
Preta cansada
lambe a pata
rodopia
se ajeita
e dorme.


(Flávia Trigo)

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

O sertão de uma alma

fotografia: Sebastião salgado

Uma moça e
seu destino
Uma reza e
um menino

Olhos fundos
tão expressivos
Gestos
enigmáticos
quase impulsivos

Sonhos simples
não concebidos

_ Água para beber
Comida para comer
Cama para dormir
Sonhos para viver_

Uma moça e
um menino
uma reza e
um destino

_Água que brota
Chuva que alaga
E felicita_

Gotas de vida
nova história
nova ilusão
até a próxima seca
rasgando a alma
da moça
do menino e
do sertão.



(Flávia trigo)

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Baila Bailarina

Arte: Alfredo Palmero



Baila bailarina
triste e envelhecida
A cortina já não abre
Os aplausos a ignoram
A vitrola já não toca
Coração já não dispara
Os valores de outrora
abandonados na memória
E dos sonhos que ela tinha
hoje chora enternecida.

Baila bailarina
tão triste
tão esquecida.

(Flávia Trigo)

sábado, 29 de setembro de 2007

Conto de enganos


E assim acordou:

lágrimas secas
boca amarga
corpo suado e
envelhecido

E assim levantou-se:

não pensou em nada
não sorriu
não chorou
nem se deu bom-dia...

Foi para o banho
Lavou-se.
Mas a dor não saía

Vestiu-se com a camisa
mais bonita que tinha
Penteou-se, perfumou-se...

Fez uma mala
(Mal feita)

Abriu a porta
e se foi.

Não triste
tão estranho
como se nunca
tivera vivido
com a mãe de seus
filhos

– sua princesa
de enganos –


... E viveram felizes
para sempre.


( Flávia Trigo)

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Diz que foi


De repente ele acordou
de um sonho
que nem bem começou
Foi um golpe
e não uma escolha

E acordado não queria ver
a realidade tardia
e o sol brilhava...
... Mas tanto fazia

E o que dele restava

urrava!

Já não havia ninguém ao seu lado,
nem uma mão para segurar a sua,
nem uma palavra que lhe trouxesse
tranqüilidade...

E foi assim
de repente um sonho
de repente um susto
de repente

- um fim.

(Flávia Trigo)

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Princesa de ninguém


Eu, princesa de ninguém
assumo hoje
com dignidade
meu posto
de Café-com-leite

Fui quase namorada
quase esposa
quase amante
quase amiga
quase irmã
quase nada!

Eu, princesa de ninguém
assumo hoje
que sempre soube
ter quase sido...
Mas que no fundo
adoraria sentir-me
amada.

(Flávia Trigo)

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Parecia um sonho


Naquele dia eu sorri...
E era tão difícil para mim!
Era estranho assumir
um sentimento tão puro
querendo romper
a fronteira que eu
insistia em deixá-lo,
para que você não notasse
o quanto me fez flutuar...


Parecia um sonho...
Tudo meio nublado,
mesmo com sol
e flores cheias de vida
por todos os lados;
os Lagos,
as Joaninhas

– observadoras recentes
de nossa alvorada-


Seus olhos tão lindos
meu vestido florido...
Seus beijos,
e uma vontade engasgada
de nunca querer acordar!

(Flávia Trigo)

sábado, 15 de setembro de 2007

Infinitos Lamentos


Vou guardar
seu sorriso
como um
amuleto
Vou guardar
meu coração
porque não
o agüento

Aconchego
e solidão
num
mesmo momento
Noite confusa
Lágrimas brotando
rios
de tormentos

Perco-me
entre flores
de algodão
procurando
restos
de amarras
ao relento
Grito por
seu nome
só escuto
o vento


Percalina
linda capa
páginas abertas
chorando
por tanto
tempo
Leio-as
e só agora
as entendo

Amores
Perdem
a graça
quando
há laços
por todos
os lados
e infinitos
lamentos


(Flávia Trigo)

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

A dor de minhas lágrimas


Escorrendo pelos dedos
como fios de azeite quente
sua figura faz-se ausente
No desejo louco de tê-lo comigo
invento um sorriso
mas, minhas lágrimas
tão doloridas
esbarram-se umas nas outras
Jogam-se ao acaso
– aflitas–
e não se ouve um só grito!
Pois a dor de perdê-lo é tamanha
que percorrem firmes
o longo caminho rumo ao infinito.


(Flávia Trigo)

Seus Olhos

Muito mais
que uma espera...
Promessa de sonho
Deliciosas meias-verdades
Estrelas que brilham:

Extasiam
atordoam
inebriam...


Cílios seus...

Nem digo! Coisa linda...
Toda a minha...
... Fantasia


Seu toque

Forte!
Sangue que eclode
que vagueia
Lua Cheia
raios rasgados
Pó de estrelas
Poesia.



(Flávia trigo)

Sonoridades

Palavras que brindam
Barulhinhos de bolhas de gás
– Infinitas (tão prósperas, tão lindas...).

Papel que se rasga
Barulhinho que diverte!
– E se esquece... Inerte.

Esboços que fazemos
Barulhinho de invejas... Nem ligamos!
(E anoitece e, amanhece!).

Som tão peculiar
Silêncio? Barulhinho insano.
– Que envaidece!

( Flávia Trigo)

A Dama

Sou muito
Sou nada
A fagulha que lhe escapa

Sou morna
Insossa
Beijo-lhe a boca
Como se nada fosse

Sou frígida
disfarço
Em gargalhadas
sórdidas
o maltrato


E no gargalo
da garrafa
amaldiçôo
o dia em que
o conheci

Cuspo do lado
o rancor bem guardado
Com doce sorriso
levanto-me
e parto.


(Flávia Trigo)

A Má

Sou muito
Sou nada
A fagulha de vida
que me escapa


Sou quente
Ausente
Beijo-lhe a face
Atormentada
- Em disfarce-
desejo seus lábios


E no copo de suco
que bebo
fingindo-me
contente
Imagino
Bolhinhas de cava
Sorrisos
Palavras
- Você comigo
pra sempre.





(Flávia Trigo)

Borboletas Embriagadas

Quanta loucura e
nem um toque
Nem um olhar
nem um beijo
Nem saber de cheiros
ou das cores

Quanta loucura
por tanto desejo e
amores
Amores coloridos
de inúmeras flores
Violetas
margaridas
Inseticidas para
adormecer
joaninhas suicidas
Borboletas beijando
pétalas
embriagadas de amores
sem saber ao menos
de seus sabores!

(Flávia Trigo)