sábado, 18 de outubro de 2008

O velho verbo


Sou Remédios, a bela,
sou Flor, sou Fiorella:
resquícios de variadas primaveras


Hoje sou terra molhada:
nuvens rosadas
dias verdes...
olhos tão lindos
bocas com sede.

(repleta daquilo que não entendo,
revejo antigos sentimentos
e atuais descrenças)


Permaneço distante,
com passos mais lentos
e, de minha boca poucas palavras saem...
Já não quero mudar o que não se pode tocar!

Sou primavera
quase outono
mas serei sempre
do velho verbo amar!



(Flávia Trigo)

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Pedaço de Pão



Deliciosa sensação
prazer contínuo e sem medo
felicidade que brota e transborda
sorriso que aquece o coração.

Abraços de que não me esqueço por um só momento
e tudo o que mais desejo é repartir meu pedaço de pão
Aceite-o! Chama-se amor, compaixão,
deliciosa sensação!

Prazer contínuo e sem medo
Viver é muito mais do que ter
é saber olhar para fora
enxergando que lá dentro
sempre existe uma delicada floração.

Prazer contínuo que reparto
acolha-o e sinta-o
pois há de chegar a hora em que
de sua flora brotará uma nova razão

- reparta-a.


(Flávia Trigo)

terça-feira, 8 de julho de 2008

Ata-me

La Jeune Tarentine por Alexandre Schoenewerk, 1871 : Musée d'Orsay



Luz púrpura:
Perfume de abril
olhares de que se lembra
(mas que provavelmente nunca os viu).

Luz do dia:
Sono de toda uma noite em claro
sangrando sua alma que de tão vazia continua vagando
entre prazeres e escuridão:
Oscilante sensação.

Luz negra:
Cobertor na cara
cobrindo o corpo,
as feridas da alma,
em momento tolo de reclusão.

Luz branca:
Eis que a lua retorna!
O chamado do lobo ecoa entre montanhas fantásticas
e a mesma percepção:
Mão trêmula, permissiva,
efêmera satisfação.

(Flávia Trigo)

terça-feira, 17 de junho de 2008

O esquecimento



Podia pintar-se de azul maravilha
que nada aconteceria
correr de um lado para o outro
que tanto faria
se cantaria Madonna sem noção
nem espaço
se encantaria crianças
imitando palhaço
se pularia cordas de aço
e não se machucaria
tanto, tanto faria!

Podia subir na mesa
com suas sandálias
estrategicamente desamarradas
cuspir na calçada, vestir-se de noiva
chorar esgoelada
que nada, nada mesmo importaria!

Podia dizer que o amava
beijar suas botas
amarrar as fantasias
engolir seco a poesia
desfalecer a euforia
podia isso
podia aquilo
que tanto, tanto faria!

Podia tudo
podia rindo
podia indo
e se arrastando
podia amando
e se odiando
e, contudo
só não podia o que mais queria:
dar vida ao sentimento que nele já não existia.


(Flávia trigo)

Chão que é de pó

(VAN GOGH, Vincent)

Pés que pisam
chão que é de pó
o vento levando perfume
arranca até roupa
mas não estanca
a dor, o sangue
e o medo de estar só

(era uma tristeza tão grande
que os pensamentos perdidos
só faziam escurecer

era um misto de desilusões e mágoas
daquelas de emudecer

e do tempo, o que se esperava –
um dia de sol quente
com fortes braços de raios a envolver.

Eram noites
eram dias
na verdade, um tanto faz:
querer, sonhar e viver)

Pés que pisam
chão que é de pó
névoa que seca os olhos
que enterra os sonhos
num lugar tão profundo
em que o vento canta
mas não estanca
a dor, o sangue e o medo de estar só.


(Flávia trigo)

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Eu quero




Escondo-me
entre segredos
e lendas
entre o óbvio e o irreal
entre infantilidades
e futilidades
entre o que perdi
e aquilo que ainda não encontrei

Eu queria tanto ter
... ser

Mas ainda não posso
e não sou!
Não tenho
e não sei se um dia terei
Mas continuo com meus passos
demasiadamente lentos

- flutuando entre o meu real
e outros espaços -

Cada vez mais mimados por mim mesma
e exigentes de maior franqueza
entre caminhos que já tracei
e aqueles que nunca imaginarei.


(Flávia Trigo)

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Ante-sala



Frio
Gotas de chuva – gelo por dentro
Descontentamento.
Nada de afetos e papinhos afins
Sorriso sem graça
sem a menor vontade de não sê-lo.

Mãos que se dão
Asco e mais nada
Ela entra: Bela.

Sorrisos calorosos – falsidade entre covardes.
Gargalhadas escandalosas
Bebida
Comida
e som


E o tempo se esvai...

Silêncio
Frio
Gotas de chuva - gelo por dentro
Descontentamento.


(Flávia Trigo)

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Não me peça para escrever




Não escrevo porquê me falta inspiração
porquê olho para a terra
para a vida que brota
para a lagarta que nasce
e não sinto nada...
Mentira!

Não escrevo porquê me sobra inspiração
porquê olho para a terra
para vida que brota
e sinto uma dor imensa no coração

Vejo a lagarta que nasce
e me entristece a fugacidade
de sua ingenuidade
a fugacidade
de sua liberdade
a fugacidade
de suas possibilidades:
de sentir suas asas nascerem
de voar sem saber pra quê
e de morrer sem ao menos compreender-se viva

Não escrevo porquê padeço
e padecendo não me pareço
com aquilo que desejo e muito parecer:
com a vida que brota
com a lagarta que nasce
com o belíssimo amanhecer!

Por isso não chore,
não me peça para escrever!

(FláviaTrigo)

sábado, 22 de março de 2008

Suspeita






São apenas sonhos
entendo...
São apenas palavras
- pequenas-

São abstratas insinuações
atadas a complicadas situações
- aladas -

São ventos sem direções
montanhas com fendas
- fecundos vulcões -

São raros momentos
de contemplação
São verdades e meias
são palavras inteiras
são mentiras alheias
a qualquer justificação

Rachadura imensa
entre o passado
o presente
e uma intensa
ilusão.

(Flávia Trigo)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

O Mundo de Mônica




Mônica andava pelas ruas, toda suja, toda sentida. No passado, foi moça bonita, falava bem, vestia-se bem, comia bem! Mônica tinha uma casa, um marido, um presente tranqüilo e sonhos para o futuro. Tinha suas plantas, seus bichinhos de estimação – era cuidadosa com as coisas que tinha!
Mônica tinha tudo. Pois é: tinha! E agora andava pelas ruas perdida... Por onde passava, as mães seguravam seus filhos e, aflitas, cochichavam algo, enquanto as crianças ficavam nitidamente constrangidas. As velhinhas, por sua vez, seguravam suas bolsas, como se nelas houvesse o sopro de vida. Os marmanjos passavam pela moça, como se a pobre nem existisse. Mas ela existia! E tinha fome e tinha frio e tinha sede e ficava doente e ficava triste e tinha enxaqueca e tinha vida! Mônica tinha de tudo! Só não tinha beijos afetados, abraços calorosos; amigos para o jantar. Não havia uma mão amiga; uma ajuda concreta.
Mas hoje era noite de natal e, de Jesus, Mônica se lembraria. Ouviria as pessoas gargalharem; comeria sobras - com sorte, até um cantinho mais iluminado ela teria para dormir. E dormindo, Mônica sonharia, e no sonho, amanhã seria um lindo dia.


Ore por Mônica, mas não chegue perto! Ela fede, ela respira!


(Flávia Trigo)

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Bipolar




Beijos mutantes:

mutilados e íntegros
motivados e sem vontade
multiestalados e calados
multífluos e áridos
multiacesos e apagados



Sussurros e ódios:

rancores e espasmos
drogas na veia
comida integral
dormir cedo

- acordar para
caminhada matinal




Luz do sol:

cansaço e escuridão
flores murchas
colhidas, esquecidas
e dormidas na minha mão

- esqueça a nossa canção!



Beijos:

mutantes e mutilados
sentimentos íntegros
em cacos de vidro
sangrentos e chatos!
Multipolares
neuróticos
Um saco!


(Flávia Trigo)

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Hoje




Hoje sou sonho
e sem motivo
(compreensível)
sou seu pão
sua fome
sua sede
Fina risca
entre
a inocência
e a perdição
Sou a luz negra
sou a própria escuridão
Hoje sou alegria
sou tristeza
chuva e vulcão
Sou tudo
sou nada
sou (ainda)
aquela nossa velha canção.

(Flávia Trigo)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Os Girassóis



serviam para iluminar
o caminho dos amigos perdidos
serviam para acolher
corações partidos
serviam para
acreditarmos num futuro
amarelo
num futuro quentinho
serviam para que gritássemos
como a vida é bela

até que um dia os girassóis
desencantados com
os desamores
decidiram ser giraluas
desde então,
não há um futuro quentinho
nem o acolhimento como
num ninho
desde então os dias
são longas caminhadas
num campo sem vida
num campo com flores dormidas
num campo em que tristes e desiludidos
padecem os giraluas.

(Flávia Trigo)

Menina (da Mata)

(Ilustração: Steve klinkel)

quando quiser me fazer feliz
bote uma saia rodada
um vinho tinto seco e pasta
uma música que nada disfarça e
só então traga-me o supra-sumo:
Declame Neruda!

(Flávia Trigo)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

O menino da floresta


Ele tinha medo
medo do vento
medo do tempo
medo do amor
medo de carinho
medo da violência
medo da doença

Tinha medo de sentir
e de não sentir
medo de chorar
medo de sorrir
medo do sol
e da escuridão
medo das pessoas
e da solidão

Por isso
ele fingia
e fingindo se perdia
e perdido...
Ele tinha medo.

(Flávia Trigo)

domingo, 6 de janeiro de 2008

A leveza de Ana

Foto: Sebastião Salgado


Ana amava demais. Amava Pedro, amava Carlos, amava João, amava Flora, amava Laura, amava Elis, amava Rogério e André. Ana amava com tamanha intensidade, que seu amor a corroía. Ana chorava. Amava as plantas; conversava com elas! Também os animais - não matava insetos. Ana sabia amar a todos. Ou não sabia, já que por todos sofria. Ana amava o planeta, e, por ele sangrava. Ana não comia carne e não gostava de arrancar os vegetais; ela também os amava!
Seus dias eram tristes, eram longas horas de dor. Ana chorava, se descabelava de tanto amor!
Ana sorria para todos; sua voz afável, seus gestos doces; queria fazer o bem – sempre. Muitas vezes não saía de casa por não ter condições de ser a pessoa especial que gostaria de ser, sem enxergar o quanto já era especial! Ana era tão doce, tão meiga...

... Tão doce, tão meiga; tão triste e tão distante... Ana acordava triste! E chorava ao ver o dia tão lindo e não conseguir digeri-lo! Ana recolhia-se triste; mergulhada em lágrimas que depois de hora, ajudavam-na a dormir – quentinhas -, entre seu rosto melancólico e o travesseiro. Ana dormia mal, comia mal, mas sempre sorria! Tinha sempre palavras necessárias na ponta da língua - necessárias para a manutenção da harmonia, da satisfação daqueles que amava (e eram tantos!).
Ana, pobre Ana...
Amando a todos, esqueceu-se de amar-se, entupiu-se de fantasias: tão coloridas; não saborosas, mas fortes o suficiente para fazê-la sonhar! Ana agora sonhava. Ana partia para o sonho, para as cores, para os cheiros, para sentir (enfim!) a leveza de tudo o que amava. Ana agora morria.

(Flávia Trigo)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Tonalidades



Arte: Eber de Gois

Entre o pingo de chuva e teus olhos
entre teus dedos e as pétalas de rosa
entre a emoção e a borboleta que pousa
entre o cadarço desamarrado e a estrada a seguir


Brilham nossos olhos
o pingo de rosa
e a pétala de chuva a florir

Pintam tonalidades afoitas:
azul neblina, rosa a encardir, amarelo
sempre te quero, e o negro nunca te vi

Brincam tonalidades afáveis
no desejo insano de não partir
por isso mudam suas nuances
e permanecem perto de ti.



(Flávia Trigo)