domingo, 6 de janeiro de 2008

A leveza de Ana

Foto: Sebastião Salgado


Ana amava demais. Amava Pedro, amava Carlos, amava João, amava Flora, amava Laura, amava Elis, amava Rogério e André. Ana amava com tamanha intensidade, que seu amor a corroía. Ana chorava. Amava as plantas; conversava com elas! Também os animais - não matava insetos. Ana sabia amar a todos. Ou não sabia, já que por todos sofria. Ana amava o planeta, e, por ele sangrava. Ana não comia carne e não gostava de arrancar os vegetais; ela também os amava!
Seus dias eram tristes, eram longas horas de dor. Ana chorava, se descabelava de tanto amor!
Ana sorria para todos; sua voz afável, seus gestos doces; queria fazer o bem – sempre. Muitas vezes não saía de casa por não ter condições de ser a pessoa especial que gostaria de ser, sem enxergar o quanto já era especial! Ana era tão doce, tão meiga...

... Tão doce, tão meiga; tão triste e tão distante... Ana acordava triste! E chorava ao ver o dia tão lindo e não conseguir digeri-lo! Ana recolhia-se triste; mergulhada em lágrimas que depois de hora, ajudavam-na a dormir – quentinhas -, entre seu rosto melancólico e o travesseiro. Ana dormia mal, comia mal, mas sempre sorria! Tinha sempre palavras necessárias na ponta da língua - necessárias para a manutenção da harmonia, da satisfação daqueles que amava (e eram tantos!).
Ana, pobre Ana...
Amando a todos, esqueceu-se de amar-se, entupiu-se de fantasias: tão coloridas; não saborosas, mas fortes o suficiente para fazê-la sonhar! Ana agora sonhava. Ana partia para o sonho, para as cores, para os cheiros, para sentir (enfim!) a leveza de tudo o que amava. Ana agora morria.

(Flávia Trigo)

9 comentários:

Lili disse...

Olhei no espelho...... e vi Ana!
Não tão leve......
Mais sorrisos do que lágrimas....
Amo tanto!!!!
Amo tudo.. Amo todos....Tantas coisas.....tantas pessoas!!!

Mas não sou Ana..... sou Lili não vou morrer de tanto amar, vou é amar até morrer!

Amo Vc Flor! e esta pérola só podia vir de ti!
Palavras tão belas..... tão tristes e ao mesmo tempo de tantas cores!
Com certeza Ana morreu leve e feliz!

Beijinhos doces pra vc !!!!!!

Benvinda Palma disse...

Minha doce poeta...que belo conto...encantou-me, seduziu minh'alma...êxtase supremo! Teu canto pe belo como uma flor e traz a paz de um lírio.
Ontem fiz um acróstico para Ana, veja a coincidência!!!

ANA

A mar foi a tua escolha
Não um amor barato
Mas um amor que de fato
Entrega a vida ao irmão


N esta vida tão fugaz
Onde não se leva nada
Escolheste o melhor--
o caminho para PAZ!


A ssim, irmã Ana querida
Neste dia somente teu
Quero rogar a Deus
Chuva de graças em tua vida!

Benvinda Palma


beijos de luz amiga!

Unknown disse...

Flávia, não imagina como fiquei emocionada ao ler esse texto...Sou muito dessa Ana que ama e sofre...
Vê como não é coincidência o nosso encontro?
Quando eu iria imaginar de abrir o seu blog e encontrar esse texto maravilhoso que leva o meu nome?
Estou adorando tudo!!
Beijo,
Carinho,
Ana

Unknown disse...

Linda Ana, triste Ana, pobre Ana...

bjos
Paty

Anônimo disse...

Que lindo texto!!! Eu me lembrei de Freud qdo estava lendo. Ele dizia que o amor deve ser dado somente às pessoas que merecem. Que o amor a todos não era interessante, pq nao seleciona! E Ana não selecionou a pessoa mais importante: ela mesma!

Bjos, flor

crisvm disse...

Todos os sentimentos passaram por aqui, por este seu texto. O maior de todos? O poder de amar.
Amei.....rs
beijo enorme

Samantha Abreu disse...

puxa...
essa ciranda de amores da qual a gente faz parte, muitas vezes sem perceber, ou sem saber.
É linda.

Texto muito bom, Flávinha!
Um beijo!

Paulo D'Auria disse...

Amar demais é o quê?
É defeito?
De quê?
De fabricação?
De criação?

Como a gente desaprende?
Se arrepende?
Precisa nascer de novo?
E pra isso,
É preciso morrer?

Beijos,
Lindo texto, Flavinha!

Anônimo disse...

Flávia, amiga minha,

Que bom retornar e encontrar esta leveza.
Encontrar com Ana.
E principalmente encontrar com Flávia!!
Sempre sensível!! Sempre poeta!!
Beijos de fã-amiga

Clau Assi