quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Menina (da Mata)

(Ilustração: Steve klinkel)

quando quiser me fazer feliz
bote uma saia rodada
um vinho tinto seco e pasta
uma música que nada disfarça e
só então traga-me o supra-sumo:
Declame Neruda!

(Flávia Trigo)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

O menino da floresta


Ele tinha medo
medo do vento
medo do tempo
medo do amor
medo de carinho
medo da violência
medo da doença

Tinha medo de sentir
e de não sentir
medo de chorar
medo de sorrir
medo do sol
e da escuridão
medo das pessoas
e da solidão

Por isso
ele fingia
e fingindo se perdia
e perdido...
Ele tinha medo.

(Flávia Trigo)

domingo, 6 de janeiro de 2008

A leveza de Ana

Foto: Sebastião Salgado


Ana amava demais. Amava Pedro, amava Carlos, amava João, amava Flora, amava Laura, amava Elis, amava Rogério e André. Ana amava com tamanha intensidade, que seu amor a corroía. Ana chorava. Amava as plantas; conversava com elas! Também os animais - não matava insetos. Ana sabia amar a todos. Ou não sabia, já que por todos sofria. Ana amava o planeta, e, por ele sangrava. Ana não comia carne e não gostava de arrancar os vegetais; ela também os amava!
Seus dias eram tristes, eram longas horas de dor. Ana chorava, se descabelava de tanto amor!
Ana sorria para todos; sua voz afável, seus gestos doces; queria fazer o bem – sempre. Muitas vezes não saía de casa por não ter condições de ser a pessoa especial que gostaria de ser, sem enxergar o quanto já era especial! Ana era tão doce, tão meiga...

... Tão doce, tão meiga; tão triste e tão distante... Ana acordava triste! E chorava ao ver o dia tão lindo e não conseguir digeri-lo! Ana recolhia-se triste; mergulhada em lágrimas que depois de hora, ajudavam-na a dormir – quentinhas -, entre seu rosto melancólico e o travesseiro. Ana dormia mal, comia mal, mas sempre sorria! Tinha sempre palavras necessárias na ponta da língua - necessárias para a manutenção da harmonia, da satisfação daqueles que amava (e eram tantos!).
Ana, pobre Ana...
Amando a todos, esqueceu-se de amar-se, entupiu-se de fantasias: tão coloridas; não saborosas, mas fortes o suficiente para fazê-la sonhar! Ana agora sonhava. Ana partia para o sonho, para as cores, para os cheiros, para sentir (enfim!) a leveza de tudo o que amava. Ana agora morria.

(Flávia Trigo)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Tonalidades



Arte: Eber de Gois

Entre o pingo de chuva e teus olhos
entre teus dedos e as pétalas de rosa
entre a emoção e a borboleta que pousa
entre o cadarço desamarrado e a estrada a seguir


Brilham nossos olhos
o pingo de rosa
e a pétala de chuva a florir

Pintam tonalidades afoitas:
azul neblina, rosa a encardir, amarelo
sempre te quero, e o negro nunca te vi

Brincam tonalidades afáveis
no desejo insano de não partir
por isso mudam suas nuances
e permanecem perto de ti.



(Flávia Trigo)

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Ácido


A música não tocava. O violão jogado de lado. Já não tinha vontades, ou ainda, não mais importavam. Resolveu ser normal, ser decente, resolveu mostrar aos outros que valia a pena
ser quem ele era. Quem ele mostrava ser. Fingiu tão bem, que acabou se perdendo. Pouco importavam as horas, os dias, as pessoas. Ele sim, tinha cabeça boa! Não era mutante, inconstante ou desequilibrado. Ele sim, era confiável! Mas o problema real surgia quando a noite chegava. Tomava banho, fazia a barba e então, se olhava no espelho. Afinal de contas quem era aquele sujeito que via à sua frente? Era ele! Mas quem era “ele”, afinal? Ahhh, ele era o sujeito equilibrado, o sujeito constante. Dava um sorriso falso, para si mesmo! Fazia a barba correndo, sufocado pela idéia de, enfim, se reconhecer frente ao espelho. Dava logo uns tapas (passando a mão no rosto, impregnada de uma ótima loção americana ; um must ! ).
Terminado o capítulo banheiro; ia para a cama. Dormia profundamente, após a ingestão de um confiável tarja preta. Droga lícita, de gente bonita, de gente bacana e equilibrada. Usava “só para relaxar”.
No outro dia levantava-se, não se olhava no espelho, tirava o pijama, tomava café - quente e forte - , enquanto lia o jornal que pegava em frente à sua porta. Tudo certo. Tudo milimetrado. Só quando se sentia preparado para o dia longo e estranho que tinha pela frente, saía de casa. Dirigia seu carro ouvindo no rádio o jornal para pessoas cults. Ele era cult! Sim! Ele era antenado, equilibrado e cult! Sim, ele era um chato! Ele era ácido.


Afinal de contas, do que falávamos mesmo?


(Flávia Trigo)

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Desconforto


Estou tão triste
tão triste
que rima
minha
mal brinca
com as Palavras

Que meus sussurros
ecoam trovoadas
Que meus olhos
gritam
as primeiras
lágrimas
motivadas
por não sei o quê

(vindo de mim
ou
de você).

Estou tão triste
tão triste...
Que do meu peito
sangra o desalento
de palavras
mal interpretadas

Me diz, tudo isso
pra quê?

(Flávia Trigo)

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

O moleque, a Preta e a bola


Pé de moleque
pata preta
Preta pega
a bola que rola
que bate no pé
do moleque
que corre

Preta pula
o moleque chora
Preta pára
baba e lambe
o suor do moleque
que escorre

Abana o rabo
O moleque sorri
levanta e chuta a bola
suja de terra vermelha
Preta cansada
lambe a pata
rodopia
se ajeita
e dorme.


(Flávia Trigo)