
A música não tocava. O violão jogado de lado. Já não tinha vontades, ou ainda, não mais importavam. Resolveu ser normal, ser decente, resolveu mostrar aos outros que valia a pena
ser quem ele era. Quem ele mostrava ser. Fingiu tão bem, que acabou se perdendo. Pouco importavam as horas, os dias, as pessoas. Ele sim, tinha cabeça boa! Não era mutante, inconstante ou desequilibrado. Ele sim, era confiável! Mas o problema real surgia quando a noite chegava. Tomava banho, fazia a barba e então, se olhava no espelho. Afinal de contas quem era aquele sujeito que via à sua frente? Era ele! Mas quem era “ele”, afinal? Ahhh, ele era o sujeito equilibrado, o sujeito constante. Dava um sorriso falso, para si mesmo! Fazia a barba correndo, sufocado pela idéia de, enfim, se reconhecer frente ao espelho. Dava logo uns tapas (passando a mão no rosto, impregnada de uma ótima loção americana ; um must ! ).
Terminado o capítulo banheiro; ia para a cama. Dormia profundamente, após a ingestão de um confiável tarja preta. Droga lícita, de gente bonita, de gente bacana e equilibrada. Usava “só para relaxar”.
No outro dia levantava-se, não se olhava no espelho, tirava o pijama, tomava café - quente e forte - , enquanto lia o jornal que pegava em frente à sua porta. Tudo certo. Tudo milimetrado. Só quando se sentia preparado para o dia longo e estranho que tinha pela frente, saía de casa. Dirigia seu carro ouvindo no rádio o jornal para pessoas cults. Ele era cult! Sim! Ele era antenado, equilibrado e cult! Sim, ele era um chato! Ele era ácido.
Afinal de contas, do que falávamos mesmo?
(Flávia Trigo)